“Não deixe ele sair sozinho.”
“Ela não pode mais cozinhar.”
“É melhor alguém cuidar do dinheiro.”
“Não queremos que ele faça isso porque pode cair.”
Essas preocupações são frequentes nas famílias de pessoas idosas e, muitas vezes, surgem de um desejo genuíno de proteger. Mas existe uma questão importante: em que momento o cuidado deixa de proteger e começa a limitar desnecessariamente a liberdade do idoso?
Autonomia não é o mesmo que independência
Na Geriatria, fazemos uma distinção importante.
Independência está relacionada à capacidade de realizar atividades sem ajuda. Já a autonomia diz respeito à possibilidade de tomar decisões sobre a própria vida, de acordo com seus desejos, valores e preferências.
Assim, um idoso pode precisar de ajuda para tomar banho, organizar medicamentos ou fazer compras e, ainda assim, ser perfeitamente capaz de decidir onde deseja morar, como quer passar seu tempo e quais tratamentos aceita ou não.
Precisar de ajuda não significa perder o direito de escolher.
Quando proteger pode se transformar em excesso de controle
Com o envelhecimento podem surgir alterações de força, equilíbrio, visão, mobilidade ou cognição que aumentam determinados riscos. Algumas pessoas também podem ter dificuldade para reconhecer essas novas limitações e continuar tentando realizar atividades exatamente como faziam anos antes.
Nesses casos, a preocupação da família é legítima.
O problema ocorre quando, para eliminar qualquer possibilidade de risco, começamos a eliminar também atividades que proporcionam prazer, identidade, participação social e senso de propósito.
Proibir uma pessoa de sair, cozinhar, dirigir, administrar seu dinheiro ou realizar determinada atividade não deveria acontecer simplesmente porque ela atingiu determinada idade.
O envelhecimento, isoladamente, não retira a capacidade de decidir.
Nem todo risco precisa ser eliminado
Viver envolve riscos em qualquer idade. Na pessoa idosa, o objetivo não deve ser construir uma rotina completamente livre de riscos — algo praticamente impossível —, mas encontrar um equilíbrio entre segurança, autonomia e qualidade de vida.
Em vez de perguntar apenas:
“Como podemos impedir que isso aconteça?”
Também podemos perguntar:
“Como podemos tornar essa atividade mais segura para que ela continue fazendo aquilo que é importante para ela?”
Às vezes, pequenas adaptações ambientais, dispositivos de apoio, fisioterapia, supervisão parcial ou mudanças na forma de executar uma atividade permitem preservar muito mais autonomia do que simplesmente proibi-la.
E quando existe comprometimento cognitivo?
Demência ou outro comprometimento cognitivo tornam essa discussão mais complexa, mas o diagnóstico, por si só, também não significa incapacidade para todas as decisões.
A capacidade decisória deve ser avaliada de acordo com a decisão que precisa ser tomada. Uma pessoa pode não conseguir administrar sozinha uma situação financeira complexa, por exemplo, mas continuar perfeitamente capaz de escolher suas roupas, alimentação, atividades, companhia ou expressar preferências sobre seus cuidados.
Quanto maior o comprometimento, maior pode ser a necessidade de apoio. Ainda assim, sempre que possível, o idoso deve permanecer no centro das decisões.
A avaliação geriátrica pode ajudar a encontrar esse equilíbrio
Quando existe dúvida sobre o que o idoso pode ou não realizar com segurança, uma avaliação baseada apenas na idade é insuficiente.
A Avaliação Geriátrica Ampla permite analisar cognição, funcionalidade, mobilidade, equilíbrio, força, condições de saúde, medicamentos, aspectos emocionais, ambiente e rede de apoio.
A partir disso, é possível identificar não apenas as limitações, mas também — e principalmente — as capacidades que permanecem preservadas e as estratégias que podem permitir que aquela pessoa continue exercendo sua autonomia com maior segurança.
O idoso continua sendo protagonista do próprio cuidado
Essa discussão também é fundamental diante de doenças e decisões sobre tratamentos.
Pessoas idosas não devem receber menos informações, ter suas opiniões ignoradas ou ter decisões tomadas exclusivamente pelos familiares simplesmente em razão da idade.
Quando possuem capacidade para decidir, têm direito de compreender as opções disponíveis, participar das escolhas e até recusar determinados tratamentos.
E, quando já não conseguem expressar plenamente suas decisões, conhecer previamente seus valores, desejos e preferências torna-se ainda mais importante para orientar o cuidado.
Cuidar bem não significa retirar todos os riscos da vida de uma pessoa. Significa ajudá-la a viver com a maior segurança possível, preservando, pelo maior tempo possível, aquilo que também importa: sua liberdade, suas escolhas e sua dignidade.